Entrevista com a socióloga Marcilene Garcia de Souza: Dia Internacional da Mulher gera reflexões

Nesta entrevista publicada originalmente no site Ecoville News, Marcilene Garcia de Souza, doutora em Sociologia e Diretora do Núcleo de Pesquisa do Instituto de Defesa de Direitos Humanos (IDDEHA), fala sobre os avanços e sobre o que ainda precisa ser alterado em relação à situação da mulher.

A reivindicação feminina por uma sociedade igualitária tornou-se mais visível a partir da Revolução Industrial, na segunda metade do século XVIII. Mas somente em 1945 a Organização das Nações Unidas (ONU) assinou o primeiro acordo internacional que afirmava princípios de igualdade entre homens e mulheres. Nos anos 1960, o movimento feminista ganhou corpo, em 1975 comemorou-se oficialmente o Ano Internacional da Mulher e em 1977 o dia oito de março foi reconhecido oficialmente pelas Nações Unidas como o Dia Internacional da Mulher. Nesta data, comemoram-se os direitos civis alcançados pelas mulheres ao longo da história. Porém, a data também serve para discutir o papel da mulher na sociedade atual. Muito foi conquistado, mas muito ainda há para ser modificado nesta história. Nesta entrevista publicada originalmente no site Ecoville News, Marcilene Garcia de Souza, doutora em Sociologia e Diretora do Núcleo de Pesquisa do Instituto de Defesa de Direitos Humanos (IDDEHA), fala sobre os avanços e sobre o que ainda precisa ser alterado em relação à situação da mulher.

Ecoville News: Quem é a mulher hoje? Quais são suas maiores conquistas e seus maiores desafios?

Marcilene Garcia de Souza: A mulher de hoje no Brasil, considerando as suas especificidades e suas diversidades, por exemplo, geográficas, de idade, de grau de escolaridade, de classe, de orientação sexual e de cor, sabem que ainda precisam ter a garantia de muitos dos seus direitos, sobretudo o da “igualdade de tratamento”. Estas, conforme os diversos indicadores sociais, encontram-se submetidas a várias situações de desvantagem e vulnerabilidade social e simbólica resultantes de um modelo machista de estruturação da sociedade, que tem impactado historicamente a forma de construir e consolidar muitas das políticas públicas no Brasil. Um dos maiores desafios é o da cidadania. Ou seja, o reconhecimento do valor das mulheres para a promoção e desenvolvimento social, político e econômico da sociedade. De um modo geral, como sabemos, os papéis dos homens são ainda mais valorizados e compensados do que os das mulheres.

Ecoville News: Quais são os maiores preconceitos que permanecem em torno das mulheres?

Marcilene Garcia de Souza: Os maiores preconceitos são aqueles relacionados com a estrutura machista da sociedade que constrói ao longo do tempo representações e papéis sociais que parecem naturalmente designadas somente as mulheres, como o cuidado com os filhos e os afazeres domésticos e outros designados aos homens, sobretudo aqueles relacionados ao poder.

Ecoville News: A mulher já conseguiu conquistar espaços importantes na sociedade e o preconceito persiste. Como a senhora vê a questão do machismo em nossa cultura?

Marcilene Garcia de Souza: Apesar dos inúmeros avanços conquistados, os pontos mais problemáticos continuam sendo o das oportunidades profissionais e a participação das mulheres nas instâncias de poder. Para além de processos mais dificultosos de inserção no mundo do trabalho, as mulheres continuam recebendo menor remuneração e apresentam menores expectativas de promoção a cargos com maior poder de mando e renda. Mesmo considerando a importância histórica e simbólica da eleição da presidente Dilma, o Brasil ainda apresenta uma grande desigualdade na participação das mulheres nos espaços de poder político nas diversas instâncias, sejam municipais, estaduais ou federais. A construção de representações sociais que reforçam a superioridade masculina nos diversos espaços, sejam públicos ou privados, garantem que nestes processos de hierarquização (ideologia de dominação) se mantenham as desigualdades ente homens e mulheres. Além disso, as situações de desvantagem, de vulnerabilidade social e de violência física e simbólica praticada contra as mulheres, sejam naturalizadas e retroalimentadas, são reforçadas e corroboradas.

Ecoville News: Nos últimos anos, quais os maiores avanços em relação aos direitos das mulheres?

Marcilene Garcia de Souza: Muitos dos avanços em relação aos direitos das mulheres foram tensionados pelos movimentos feministas. Avanços que podem ser considerados significativos ao longo do tempo, graduais e constantes. Um dos primeiros marcos na sociedade brasileira aconteceu em 1932, quando houve a conquista do voto feminino. Já em 1988, outra grande conquista veio com a Constituição Federal, que reconheceu a igualdade de gênero como direito fundamental. Em 2002, o Novo Código Civil consolidou as mudanças constitucionais. No entanto, sabemos que somente proibir as discriminações não garante que as mulheres não sofram processos de desigualdades sociais e simbólicas nos diversos espaços. Muitos destes obstáculos são alimentados pelos valores culturais machistas, que apregoam uma possível superioridade masculina que, em muitas situações, tem permitido que mulheres, para além das diferenças salariais, sofram de desigualdades de tratamento na estrutura familiar e na forma de gerir políticas públicas, por exemplo, na educação, na saúde e na assistência social. Outra grande conquista, em 2006, foi a  Lei Maria da Penha, que definiu um novo marco na proteção dos direitos das mulheres.

Ecoville News: Quais são os principais tipos de violência sofrida pela mulher e como ela lida com essas diferentes formas de agressão?

Marcilene Garcia de Souza: Uma pesquisa realizada em 2010 pela Fundação Perseu Abramo,Mulheres Brasileiras e Gênero nos Espaços Público e Privado, apontou que cerca de uma em cada cinco mulheres (aproximadamente 18%) afirmavam ter sofrido algum tipo de violência por parte de um homem, conhecido ou desconhecido. Contudo, a violência física é praticada em sua grande maioria (80%) pelos parceiros, sejam eles namorados ou maridos. A pesquisa ainda revela que uma em cada dez mulheres (10%) já foi espancada ao menos uma vez na vida. Segundo cálculos da Fundação responsável pelo estudo, isso significaria cerca de cinco mulheres espancadas a cada dois minutos no Brasil. A violência verbal e psíquica também atinge patamares altos: 40% das mulheres dizem já ter sofrido algum tipo de cerceamento ou controle, 16% já sofreram xingamentos e ofensas recorrentes referidas a sua conduta sexual e 24% já foram ameaçadas de espancamento. Mesmo com os avanços em alguns municípios de redes de apoio e de prevenção a violência contra a mulher, para além dos desafios da estrutura familiar machista que impedem que em muitas situações a mulher denuncie as agressões, em outras nem sempre há um tratamento coerente por parte dos órgãos responsáveis na forma de punir o agressor deixando as vítimas vulneráveis a novas agressões. Contudo, como temos observado, tem aumentado o número de denúncias de agressões contra as mulheres no Brasil, resultado dos avanços no Direito, assim como dos impactos das ações das organizações sociais e o rompimento do silêncio, em graus diferenciados, de toda a sociedade, justamente porque o tema da violência contra a mulher tem sido pautado com mais compromisso e seriedade em outros espaços que não somente dos movimentos feministas.

Ecoville News: Qual a importância que a senhora dá aos movimentos feministas? Eles são essenciais para a conquista de políticas públicas que favoreçam as mulheres em nosso país?

Marcilene Garcia de Souza: Com certeza. São os Movimentos Sociais Feministas com suas especificidades que, ao longo da história no Brasil, tem conseguido problematizar com a sociedade, tencionar a construção de políticas públicas, por exemplo, focalizadas na promoção da igualdade de tratamento e no combate ao machismo e as desigualdades de Gênero. É pertinente ainda enfatizar o papel das organizações de mulheres negras que tem denunciado e proposto políticas para igualdade de Gênero e também de Raça. Vê-se que, no Brasil, há uma especificidade no diálogo sobre as questões de gênero e raça, uma vez que as mulheres brancas, em muitos indicadores, apresentam maiores remunerações que homens negros e que as mulheres negras estariam no topo da exclusão social e simbólica no país.

Ecoville News: O que é preciso ainda para a mulher conquistar a sua verdadeira emancipação?

Marcilene Garcia de Souza: Apesar da ampliação e do reconhecimento dos direitos, as pesquisas comprovam que as mulheres continuam em desvantagens educacionais, e salariais, são as mais pobres e tem assumido cada vez mais a chefia de famílias, em caso de separações ou não. No mesmo sentido, ainda continuam sendo incluídas majoritariamente em trabalhos domésticos com baixa remuneração. As baixas remunerações são um fenômeno frequente nas diversas profissões mais ocupadas por mulheres. Além disso, muitas mulheres ainda continuam assumindo sozinhas a responsabilidade pelos afazeres domésticos e pela educação dos filhos. Um dos grandes desafios da modernidade e da ampliação das conquistas e direitos da mulher tem sido também o dos direitos sexuais e reprodutivos, do empoderamento político, da maior participação das mulheres nas instâncias de poder e da democratização, consequentemente, dos espaços públicos. A maior participação nas instâncias de poder contribui para a construção e gestão políticas mais eficazes que ampliem a cidadania das mulheres e promova igualdade de gênero.

Sobre mulheresdoforum

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Uma resposta para Entrevista com a socióloga Marcilene Garcia de Souza: Dia Internacional da Mulher gera reflexões

  1. Necessitamos cada vez mais mostrar para o mundo que o tempo em que a mulher era tratada como inferior ao homem e a sociedade como um todo, já era. Hoje, com algumas excessões culturais, não somos mais marionetes da sociedade e nem dos homens. Mariangela da silva Ponta Grossa Paraná.
    Abraços para todos que respeitam a figura feminina!!!1

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